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Pesquisa Clínica e
os Fundamentalistas
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Eduardo
F. Motti
CRM:
34165/SP
Gerente
de
Pesquisa
Clínica
da
Schering
do
Brasil |
Quem trabalha com
pesquisa clínica tem
de ser um pouco
fundamentalista. Se
é que “um pouco” se
aplica aqui. Nossos
livros sagrados são
as Boas Práticas em
Pesquisa Clínica da
Conferência
Internacional de
Harmonização (GCP-ICH)
e o Protocolo. Há
que conhecê-los
linha a linha, agir
apenas de acordo com
seus desígnios e
converter os infiéis
a todo custo. Mas há
quem exagere:
conheço monitores
(gênero indefinido)
que parecem ter
saído das hostes
talebãs! Ao mínimo
desvio, exigem penas
severas para os
investigadores
pecadores, em caso
de falta grave ou
reincidência, lançam
um “fatwa”.
O fundamentalismo é
uma tendência em
crescimento na
pesquisa clínica,
deixando de ser uma
característica
“peculiar” daqueles
que militam na
pesquisa, para
tornar-se um sério
problema. Pessoas
com conhecimento
limitado dos
princípios básicos e
pouco senso prático
passam a ditar
regras, criar
procedimentos,
engordar a
burocracia, na
tentativa de
encobrir sua
ignorância, ou por
pura ânsia de poder.
O que deveria ser a
busca da qualidade
torna-se a busca da
formalidade.
Auxiliados e
amparados por
auditores, esses sim
verdadeiros aiatolás,
que não admitem
contestação,
transformam questões
burocráticas em
pecados mortais,
sobrepondo a
documentação ao
bem-estar do sujeito
da pesquisa, à
qualidade científica
do projeto, etc.
Metáforas à parte,
as regras do GCP-ICH
são as
linhas-mestras do
nosso trabalho. Sua
leitura atenta
mostra que estão ali
os princípios gerais
de nossa atuação.
Infelizmente, eles
dão pouca orientação
prática ao monitor.
Este quer saber o
que deve fazer em
cada situação
específica, tem sede
de que lhe digam
como agir – um campo
aberto para a
pregação
fundamentalista. As
regras nacionais, no
Brasil a resolução
196 e
complementares, nos
EUA os capítulos
publicados no “Code
of Federal
Regulations”, e
outras, servem bem
para orientar a
burocracia, mas
fazem pouco quanto
ao direcionamento
prático dos
profissionais de
ambos os lados do
balcão.
O protocolo de um
estudo clínico sim,
esse deve abranger
todos os componentes
envolvidos em um
projeto de pesquisa.
Dar solução para
todas as dúvidas,
prever todas as
situações, ser ao
mesmo tempo
exemplificativo e
exaustivo. Logo se
vê que escrever um
protocolo é uma
missão espinhosa. Os
manuais indicam a
necessidade de se
explicitar todas as
razões, explicações,
procedimentos,
provisões, etc.
Quanto ao estilo,
são aceitáveis as
repetições e até
estimuladas, em
favor da exatidão e
da inteireza. Itens,
sub-itens, seções,
capítulos e adendos
multiplicam-se. O
resultado é
geralmente um
catatau tedioso, que
não distingue o
essencial do
supérfluo, onde o
fundamental se perde
num mar de jargão.
Mostre um protocolo
de pesquisa a um
editor e ele o
atirará ao lixo sem
contemplação. Só os
fundamentalistas
conseguem lê-lo.
Nas Comissões de
Ética e agências
regulatórias o
efeito disso é
variável: maior
volume de papel
passa uma impressão
de seriedade, o que
é bem recebido; ao
mesmo tempo,
desestimula a
leitura dos bem
intencionados, mas
sem tempo, e dá aos
incautos ganas de
aprovar sem muito
estudo. Provoca em
outros uma sanha
questionadora,
principalmente
daqueles que será
melhor ler as
respostas a suas
perguntas do que
aquilo tudo.
Para quem precisa
usar o protocolo na
prática, o que se
observa é a criação
de múltiplos
sub-produtos mais
palatáveis:
“resumo”, “roteiro”,
“pontos
importantes”,
“manual de uso”,
“guia do
investigador”, “guia
de leitura”, etc. Só
assim se consegue
levar as
determinações do
protocolo à beira do
leito, ou ao
consultório. Só que,
em geral, esses
sub-produtos não são
submetidos aos
Comitês de Ética,
por receio ou
simples falta de
costume.
Há, no entanto,
razões legítimas
para a complexidade
dos protocolos
atuais. De acordo
com GCP – ICH, o
protocolo deve ser
auto-suficiente para
o encaminhamento do
projeto de pesquisa,
isto é, deve
apresentar o
embasamento teórico
do problema, seu
objetivo, hipóteses
de trabalho,
metodologia e forma
de análise de
resultados. Não é
fácil, nem pouco.
Cada vez mais os
projetos de pesquisa
envolvem
procedimentos
complexos, altamente
tecnológicos. Também
do ponto de vista
administrativo, as
disposições para
criação de estudos
duplo-cegos e
triplo-cegos são
difíceis de
descrever. O
protocolo também
precisa deixar claro
que medidas trará
para que estejam
assegurados os
direitos
fundamentais do
sujeito da pesquisa.
Os fundamentalistas,
no entanto, foram
além e tornaram o
protocolo o mais
importante
documento legal e
regulatório do
projeto de pesquisa.
O resultado é muitas
vezes uma repetição
de informações e um
gasto de papel
imenso, sem qualquer
benefício prático.
Alguns exemplos
pontuais:
1.
Folha de assinaturas
de aprovação:
Qual o investigador,
Comitê de Ética ou
agência regulatória,
que revisa e se
preocupa com os
nomes de todos os
diretores do
patrocinador que
aprovaram o
protocolo ? Que
diferença faz para a
qualidade do
projeto?
2.
Resumo das
Informações da Droga
GCP-ICH dá
indicações claras do
conteúdo e uso da
Brochura do
Investigador. Por
que repetir essas
informações no
protocolo ?
3. Critérios de
Exclusão imbecis
presentes em alta
porcentagem de
protocolos:
-
pacientes que não se
enquadram nos
critérios de
inclusão
-
pacientes incapazes
de fornecer
consentimento
-
pacientes com grande
possibilidade de
morte em 48 horas
-
pacientes com
doenças
concomitantes que
contra-indiquem o
uso do medicamento
em estudo
4. Declaração de
Helsinqui
Todo protocolo tem
“atachada” no final
a Declaração de
Helsinque. Não
bastaria mencionar
qual a versão da
Declaração adotada
no projeto?O Brasil,
por exemplo, segue a
versão de Edimburgo
de 2000, ponto
final.
Pode parecer
mesquinharia, mas
multiplique isso
pelos mais de
100.000 protocolos
que a indústria
farmacêutica
patrocina por ano,
pelos zilhões de
centros de pesquisa
que os realizam...
Como combater o
fundamentalismo na
pesquisa? Simples,
com conhecimento,
bom senso e
serenidade. Mas,
perdão, adianto-me
assumindo que ele
deva ser combatido,
o que certamente não
é consenso. Há
aqueles que
acreditam piamente
(!) que apenas o
rigor extremo leva à
qualidade.
Para os demais, há
muito a ser feito.
No caso dos
patrocinadores, não
basta criar um
protocolo perfeito,
“fechadinho”, há que
ser prático, útil, “user-friendly”,
pois isso diminui os
erros e a má
interpretação. É bom
lembrar que a
maioria das
violações ao
protocolo e às
regras de GCP não
ocorre
deliberadamente ou
são originadas por
má fé, são sim fruto
de desconhecimento e
falha de
entendimento.
Na alçada dos
monitores, não basta
ler os manuais de
monitoria,
procedimentos
padrões (SOPs) e
sair distribuindo
“post-its”
furiosamente. Há
nuances do trabalho
que só se aprendem
com o tempo e a
prática. Há que
acompanhar um certo
número de projetos
por todas as suas
fases antes de se
considerar
experiente. Há
também que cultivar
o bom senso, através
de contato constante
com pessoas mais
experientes e de boa
formação ética.
No campo dos
investigadores, em
geral, o caso é
inverso. Há pouco
tempo assisti a uma
palestra em um
congresso em que o
apresentador
concluía que não
existe outra
“indústria” onde o
principal fornecedor
fosse tão
despreparado como na
pesquisa clínica.
Felizmente o
palestrante era
inglês, falava para
uma audiência de
ingleses, e não
sobre o nosso
Brasil, já tão
combalido. Mas está
claro para todos que
o médico não pode
imaginar que seu
número de CRM lhe
confere automático
“expertise” em
pesquisa, ou que por
ser Médico qualquer
outro profissional
lhe deve respeito
reverente, sem nunca
contesta-lo. Falta
realmente
conhecimento dos
princípios de GCP e
das necessidades
regulatórias a boa
parte dos
investigadores e
suas equipes.
Finalmente, no campo
regulatório, o
fundamentalismo tem
raízes profundas,
culturais,
ideológicas e
estruturais, que
ultrapassam o escopo
deste pequeno texto.
A Pesquisa Clínica é
uma atividade de
busca, de perguntas
e de debate. Só
assim chegamos a
respostas e, talvez,
muitas respostas,
acabem por nos
mostrar a Verdade. A
atitude
fundamentalista só
pode subverter essa
busca e criar uma
padrão de qualidade
que é artifical, por
basear-se apenas no
cumprimento de
regras, sem maior
preocupação com o
resultado final.
Obs: as opiniões
acima têm caráter
estritamente pessoal
e não refletem a
posição da Schering,
ou outra entidade.
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